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sábado, 9 de junho de 2012

Sobre a poesia













Existem muitas maneiras de se dizer as coisas.

Normalmente, as pessoas dizem simplesmente:

— Anoiteceu.


Os poetas, porém, preferem dizer:

“O entardecer já embalava a Terra
E nas montanhas pendia a noite
Já vestido de névoa estava o carvalho
Um gigante robusto, lá,
Na floresta, de onde a escuridão
Com cem olhos negros fitava”.
                                                           (Goethe)

ou ainda:

“E quando o sol se deitou
E as estradas a sombra cobria”.
                                                           (Homero)


A linguagem não é mesmo fascinante?


segunda-feira, 28 de junho de 2010

Livro: O Exílio e o Reino


Em época de Copa do (i)Mundo, vale indicar a obra O Exílio e o Reino, de Albert Camus. São seis contos que discutem a oposição entre os extremos da chamada “consciência da revolta” camusiana.
De um lado, a solidão, a condição de marginal dos que rejeitam o fluir do mundo, a vida de gado imposta pelos sistemas e poderes que conduzem a dita civilização. A este, anti-herói solitário, arquétipo do universo camusiano, que se recusa a interpretar um papel que lhe é imposto e opta pela sinceridade, o preço a ser pago é o EXÍLIO.
Na outra extremidade, está aquele que se conforma com o papel que lhe é atribuído. Transpondo para nossa realidade, seria o torcedor da seleção brasileira, uniformizado e eufórico. Aquele, cuja história pessoal repousa na história universal. Ação que, na obra de Camus, se aproxima do conceito de felicidade, de REINO.

Independentemente da extremidade que se ocupa, a leitura é recomendada. Destaque para os contos: “A mulher adúltera”, “Os mudos”, “O hóspede” e “Jonas ou o Artista Trabalhando”.



“Vamos celebrar a estupidez humana, a estupidez de
todas as nações.
O meu país com sua corja de assassinos, covardes,
estupradores e ladrões...
Vamos comemorar feito idiotas,
a cada Fevereiro e Feriado...
é festa da torcida campeã!”
Perfeição - Legião Urbana.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Karenina...Karenina...


E de repente, na primeira centena de páginas de Anna Karenina, de Tolstoi, surge a seguinte passagem:

O ir e vir das pessoas incomodava-a [Anna], e quando o comboio se pôs em andamento foi-lhe impossível não prestar atenção aos ruídos dos vagões. Mas daí a pouco distraía-se com a nevasca que estava caindo, açoitando a vidraça da portinhola esquerda, com o condutor que passava, muito agasalhado e coberto de neve, e os comentários a respeito da tempestade que se desencadeava. Mais adiante tudo se repetia, o trepidar da composição, a neve na vidraça, as bruscas mudanças de temperatura, do calor para o frio e do frio para o calor, as mesmas caras na obscuridade e as mesmas vozes. Contudo, conseguira principiar a ler e compreender o que lia. Ánuchka já dormitava, segurando entre as mãos enluvadas – uma das luvas estava rota – o saquinho vermelho em cima dos joelhos. Ana Arcádievna lia e compreendia o que lia, mas o desejo que ela própria tinha de viver era grande demais para se interessar pela vida dos outros. Se a heroína do romance tratava um doente, Ana tinha desejos de andar em passos leves pelo quarto do enfermo; se um membro do Parlamento pronunciava um discurso, ela própria desejaria tê-lo pronunciado; se Lady Mary cavalgava atrás de sua matilha, irritando a nora e a todos assombrando com a sua audácia, Ana ambicionava ser ela própria a galopar. Mas nada tinha de fazer! E lá ia revolvendo nas mãos a espátula de cortar papel e prosseguindo na leitura...( ) abandonou o livro e recostou-se no assento, apertando a espátula entre os dedos.


Comentário pessoal: o livro possui, dependendo da edição, cerca de 800 páginas. Nesse caso, assim como se faz com a recomendação “até mesmo os melhores livros merecem ser deixados de lado”, de Proust, deveríamos ignorar completamente a observação de Karenina de Tolstoi e prosseguir com a leitura.


* no detalhe: Greta Garbo (Anna Karenina, 1935, dir: Clarence Brown).
Leon Tolstoi (1828-1910)

domingo, 30 de maio de 2010

O Blog recomenda:









Classicos Abril Coleçoes





CRIME E CASTIGO
1o. e 2o. volumes:
R$ 14,90


A introdução em quatro versões.

Numa dessas tardes mais quentes dos princípios de julho, um rapaz saía do pequeno quarto que alugara, no Beco S., dirigindo-se, o passo tardo, vacilante, para a ponte K. Teve sorte por não encontrar, na escada, a senhoria.
A água-furtada ficava no alto de uma casa enorme, de cinco andares, e parecia mais um armário do que um cômodo habitável. A criatura que lhe alugara o cubículo, com comida e serviços da empregada, morava, justamente, logo embaixo, de maneira que era obrigado, toda vez que saísse, a passar pela frente da respectiva cozinha, cuja porta, geralmente escancarada, dava para a escada. Nessas ocasiões, sua expressão se contraía e vinha-lhe, sempre, aquela vaga sensação mórbida de pavor, que o humilhava. É que, devendo alguns meses de aluguel, receava encontrá-la.

Abril Coleções – Trad. Rosário Fusco


Em um maravilhoso entardecer de julho, extraordinariamente cálido, um rapaz deixou o quarto que ocupava no sótão de um vasto edifício de cinco andares no bairro de S*** e, lentamente, com ar indeciso, se encaminhou para a ponte de K***.
Teve a felicidade, ao descer, de não encontrar a senhoria, que morava no andar inferior. A cozinha, cuja porta estava sempre escancarada, dava para as escadas. Sempre que se ausentava, via-se o moço na contingência de afrontar as baterias do inimigo, o que o fazia passar pela forte sensação de quem se evade, que o humilhava e lhe carregava o sobrecenho. Devia uma quantia considerável à locatária e receava encontrá-la.


Ediouro-Trad. Luiz Cláudio de Castro.

Nos começos de julho, por um tempo extremamente quente, saía um rapaz de um cubículo alugado, na travessa de S..., e, caminhando devagar, dirigia-se à ponte de K...
Discretamente, evitou encontrar-se com a dona da casa na escada. O tugúrio em que vivia ficava precisamente debaixo do telhado de uma alta casa de cinco andares e parecia mais um armário do que um quarto. A mulher que lho alugara, com refeição completa, vivia no andar logo abaixo, e, por isso, quando o rapaz saía tinha de passar fatalmente diante da porta da cozinha, quase sempre aberta de par em par sobre o patamar. E todas as vezes que procedia assim sentia uma mórbida impressão de covardia, que o envergonhava e fazia franzir o sobrolho. Estava zangado com a dona da casa e tinha medo encontrá-la.

Editora Nova Cultural – Trad. não mencionada.


Nos começos de julho, numa tarde muito quente, um rapaz saía de um cubículo alugado, na travessa de S*** e, caminhando devagar, dirigiu-se à ponte de K***.
Discretamente, evitou encontrar-se com a dona da casa na escada. O quarto em que vivia ficava precisamente debaixo do telhado de uma alta casa de cinco andares, e parecia mais um armário do que um quarto. A mulher morava no andar logo abaixo, de maneira que, quando o rapaz saía, tinha de passar fatalmente diante da porta da cozinha, quase sempre aberta. Nessa hora, sempre experimentava uma sensação de covardia, que o envergonhava.


Edições de Ouro – Recontado por: Carlos H.Cony.

Um livro. O livro:


















Iluminuras – gravuras coloridas
Arthur Rimbaud

Obra escrita entre 1873 e 1875, antes de Rimbaud partir para a Abissínia.



A uma razão

Um toque de seus dedos no tambor detona todos os sons e inicia a nova harmonia.

Um passo seu é o levante de novos homens e sua marcha.

Sua cabeça se vira: o novo amor! Sua cabeça se volta, ― o novo amor!

“Mude nossa sorte, livre-nos das pestes, a começar pelo tempo”, cantam essas crianças. “Não importa onde, eleve a substância de nossas fortunas e desejos”, lhe imploram.

O sempre chegando, indo a todo canto.


Ed.Iluminuras. Trad. Rodrigo Garcia Lopes/Maurício Arruda Mendonça

sábado, 1 de maio de 2010

Mulheres de ontem e de hoje


Forugh Farrokhzad
(1935-1967)


Forugh Farrokhzad é uma poetisa iraniana, cuja meteórica produção poética se deu entre 1955 e 1965, resultando em 5 livros, infelizmente não disponíveis em nosso idioma.




Basicamente, seus textos tratam da submissão, da condição feminina, da impossibilidade de se expressar – tanto no aspecto social e profissional, quanto no afetivo – em um país dominado por homens e à beira de um colapso político-religioso, que viria a ocorrer afinal em 1979, com a revolução islâmica que colocou não só os aiatolás no poder, mas também o véu nas mulheres, banindo de vez a continuidade daquilo que poderíamos chamar de um esboço de democracia no até então “moderno” Irã.
Forugh é de uma importância ímpar, uma voz singular que se torna ainda mais evidente quando, atualmente, tentamos obter material deste gênero (poesia) de escritoras daquela região do globo. Algo muito, muito escasso...

Mais informações sobre mulheres iranianas :
Persépolis (Quadrinhos, Cia das Letras)
Lendo Lolita no Teerã (Romance, Ed. A Girafa)
O Voto é Secreto (DVD: Drama)


O meu coração está carregado, carregado.

Vou até à varanda, os meus dedos afagam
a pele tensa da noite.
As luzes da comunicação apagaram-se,
as luzes da comunicação apagaram-se.
Ninguém me levará ao sol

ou me apresentará o carnaval dos pardais.

Relembra o vôo: o pássaro em si é mortal.



Versão de Vasco Gato



On Earth

I never wanted to be a star in the sky's mirage,

a select soul or an unspeaking friend of angels.

I never left the earth or took up with stars.

I stand on the earth and my body like a plant


absorbs wind, sun, and water to stay alive.