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sábado, 24 de setembro de 2011

Recortes


Agridoce

Plangentes, violões. Não os de Cruz e Souza. Mas os de Elliot Smith, Jose González, Smog, estes cavaleiros solitários. Ou os dedilhados dos filmes de Inarritu. Alguns aspectos da arte em que o Verbo cessa, em que o lógos se finda. Sem palavras.

Cena 1: Rocco Sifried pilota um helicóptero. E uma mulher lhe sorri. Estavam voando baixo. Europeus num dia frio, ricos. Eles possuem corpos que os possuem. Carne, sangue, suor, maquiagem. Atores pornôs, jovens e tristes. Tão sós. Máscaras com formato de riso. Flertando. Me sinto sufocado, como que com a cabeça enfiada num saco plástico.

Cena 1b- Mickey Rourke, em o Ano do Dragão. Cabelo grisalho. Como um dente de alho. Disse a um china: tenho cicatrizes até na alma.


            Cena 2: É férias de algum modo. Por uma questão de idiossincrasia, poderíamos chorar todos os dias. Intensamente. Diríamos certamente que nãoexplicação para isso. Simplesmente é assim que acontece, como naquelas tardes de arco-íris. O chão de repente voa. E a gente vai correndo logo atrás, perseguindo. Então penso: é férias, de algum modo. Como uma mentira engraçada. Existir é uma coisa que dói à toa.

Cena 3: Chloe, a personagem de Alain de Bottom em Ensaios de Amor, tinha fixação por desertos. Um dia ela joga tudo para o alto e vai para um local isolado. Fica por , no meio do nada, por quinze dias. Depois, não vendo sentido em tudo aquilo, arruma um emprego numa lanchonete.

Cena 4: Emily Hirsch, em Na Natureza Selvagem, joga tudo para o alto. Uma faculdade, sei , um monte de coisas. Abandona a família e, tal qual Kerouac On The Road, põe o na estrada. Penso que ele é egoísta, que possui um pai e uma mãe que se preocupam com ele, enquanto ele acampa na mata e Doutor Jivago. Trata-se de uma pessoa livre agora, embora sequer tenha envelhecido.

Cena 5: James Spader e Andie Macdowell, e seu sexo e mentiras e videotapes. Sentados em uns degraus de alguma casa confortável. Ela usa um vestido longo, como uma senhora de trinta anos, uma adolescente livre sobre gramas. Diante de uma árvore robusta. Ele tem uma crista alourada, como uma onda num dia mais brilhante, areia de praia, coroa. Ela lhe diz: você não pode se abrir como um presente...

Cena 6: eu lia os artigos do Paulo Francis. Os dias eram longos. Cheiro de tinta, quadros amadores pintados no quarto. Jornais no chão para folhear. A capa do livro do Camus. Um rosto sem uma espinha sequer.

Três Corações, Julho de 2011, relendo as coisas de Agosto de 2010. Rabiscos com datas e décadas. Escrevo. E penso no quanto a vida pode ser engraçada e ao mesmo tempo triste. Agridoce. Talvez. Muito agridoce. Há um tempo que não chove. Sinto, à distância, a chegada do verão.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Dança de redemoinhos à meia luz




A rua era aquela mesma, de todos os dias. Pouco interessante. Inclinada. Descuidada. No bairro.

Ao avistar o dono, de longe o cãozinho late. Faz, sobre a laje da casa, uma pose de Rei Leão. Uma festa. E um companheiro.

Você chorou hoje, parecia me dizer. Au, au. Olhos inchados. Au.

Um violeiro, quando apertei o passo, ficou para trás. Trazia umas notas tristes. Desoladas. No instrumento.

            Era uma noite, na cidade.

Ao ouvir o latido, todos os cães da rua acompanharam. Pareciam chorar junto.


            A menina, na porta da escola, despediu-se do namorado. Franzina. Os braços pendiam finos sob o corpo enlaçado. Claros, lisos, como os próprios cabelos, saíam das mangas da camisa preta de rock.

            Era uma tarde, na cidade.


Quem você teria amado no último inverno... porque eu não amei ninguém...
(passei esse tempo todo pensando em você...)


Você quer correr, ou ligar a TV – ela é a responsável pelo barulho na casa... – ouvir estações de rádio de madrugada. Se sua vida se parece com uma longa viagem de trem ou de táxi, sem ninguém para conversar. Levante a mão, peça pra descer... chama isto de pessimismo... te amei loucamente o tanto que durou e pelo tanto que durou... e amores assim nunca são simplesmente rompidos com um abraço ou aperto de mão... eles se consomem... você tem ideia da brutalidade que cometeu com teu amor?

Não me pergunte porque chorei, todas aquelas vezes. A cama, um confessionário em teus ombros... ou porque eu morria toda vez ...

Tudo isto é uma questão de idiossincrasia. Idiossincrasia.

Que é quando se é assim sem que se saiba o motivo. Quando se é sem saber, quando se sofre sem o saber, quando não se há motivo algum para nada acontecer... e tudo acontece.

Porque esta música é dedicada a todas as canções que não ouvimos. Ou todas as vozes que se recusaram a estar entre nós, declarando o amor...
Se dancei, não mais sei. Você ouve o saxofone ao longe. E o dia está começando. De novo. Pra quem...?


Algo me diz, diz assim. Talvez você pensando:
A novela das sete irá te socorrer. Você rirá com as trapaças, com as tragédias alheias, contadas de forma inacreditável, inaceitável. Volume alto. Olhará para o alto da noite, e perguntará às estrelas aquelas mesmas coisas. Será que o Pelé vai pro céu?


A solidão da janela à meia luz, em cima, naquele apartamento. Cortinas abafando a música. E o amor.
A solidão da janela à meia luz, é minha.

A cidade não se parece com nada. Absolutamente nada. Nenhum lugar de lugar algum. É uma estrada à toa, como essa poeira fina no redemoinho. Como eu ou a sombra humilde do poste na esquina, que se estende timidamente pela calçada. Um cone assustado pedindo licença o tempo todo. All the time. Me autorize a ser. Alguma coisa, qualquer coisa que seja.



Algo em mim, me diz assim. Mas poderia mesmo ser você:
A novela das sete irá te socorrer hoje. Volume alto. Únicas vozes ouvidas no dia. E você rirá com aquela conversinha. Riso de esquilo. Ri-ri-ri-ri-ri. Contemplará, como muitas vezes antes, no verão, o alto das constelações. E perguntará se a Bahia caberia na Lua. Como faríamos para mandá-la para ? Você olha para o lado e finge que comenta com alguém. Finge, uma esfinge.
Ou o que restou de sua voz em minha consciência.


Quer realmente entrar no ônibus circular, e circular. Redemoinho fugaz. Assim se conhece a cidade. De ponta a ponta, vielas, cenário de vídeo game irreal, auto relevo, placas de chapisco, ferindo os olhos e a mão, tão aquecido, pulsando como lodo e lava. Planta carnívora, as palmas de nossas mãos. África, Índia, Cabul. Ou somente eu. Acabou. Tudo aquilo que vi nas fotos ou na TV. Existe a dor. Existe a dor. Sim. Sim. Música na rádio, de madrugada. Somos essas coisas perdidas. Foragidos ... órfãos ... da sintonia.

A solidão daquela janela inexiste. Nem janela ela é. A tumba. Muda, fim sem ponto final. Acabou. Riso que não se completou. Ou poderia ser você dizendo coisas sobre o esquecimento em fuga. Círculos, redemoinho fugaz. Somente eu, os saxofones e as persianas num entardecer de céu areia.


Mas eu era moço, tinha o remédio em mim mesmo.
(Memórias Póstumas de Brás Cubas-Machado de Assis)



sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Crônica: Café em Cabul



[Uma crônica tricordiana]


O som, como o de uma imensa vassoura, vinha da rua, através da janela. Disso falamos na cafeteria. A previsão, no telejornal, anunciava uma terça-feira fria e, depois de sessenta e alguns dias de espera, chuva. A possibilidade é comemorada. O telhado estava apinhado das folhas secas do jardim empoeirado do terreno ao lado. Ruas vazias. Dizem por ...
Dizem por , de uns dias para . Falam sobre uma ideia estranha de que para vencer na vida você tem de ir embora, para outra cidade. Passar em algum concurso e ter um emprego destes que você tem o salário de uma pessoa adulta, um salário que não seja feminino, do tipo que para pagar a assinatura da Marie Claire. Assim, pode-se até comprar um carro. E ir a festas tolas para conhecer alguém interessante. Parece não fazer sentido. Nas horas vagas, como ao voltar pra casa, pensar em casamento, de modo diferente de tudo até então, com o pôr-do-sol migrando do asfalto ao pára brisa e, depois, avermelhando-se no retrovisor. Há muitas formas de se evadir nesta vida. Ir a eventos culturais, ou não. Ir a shows de cowboys, ou não. Ir se entediar com Beethoven, ou não. Certa vez eu desejara ver aquele Ozzy do início, ao vivo, no campo de futebol do bairro, erguendo seus braços envoltos naquelas largas camisas desfiadas por longas barbatanas, como a dos apaches das historinhas do Tex. E ficaríamos aplaudindo riffs de jurássicas gargantas, instrumentos e suas impressões de sinos, de parafusos soltos na madeira corroída, gasta, velha, esfarelando. E isso resgataria, de algum lugar, um passado volitivo. Em nós.
Tapar os ouvidos, a ponto de ouvir somente o que interessa. Isto não se faz, não no deserto. Por enquanto ainda temos o cinema. Os Iñarritu, quando chegam, costumam durar uma semana. E as poltronas ficam ali, estáticas diante da tela. Boquiabertas, sem som possível. E desse modo, também eu, neste último Chris Nolan.
A ideia de que a cidade é um vilarejo-prisão, quem incutiu em nós? Nas ruas sujas centrais, penso no pavor que deve ter sentido D.João VI em 1808 ao chegar ao Rio de Janeiro, muito menor que Três Corações... mas continuamos a não ter realeza, aqui... e a Europa, dizem, nunca fora um lugar muito limpo, como a China daquela época, ou as ruas do império asteca antes dos espanhois.
Nos acostumamos às aberrações, então me lembro que amanhã, pela manhã, os varredores de rua estarão recolhendo todo o fruto cultural de nossa Bienal dos botecos, da propaganda de supermercados, lojas, consultórios odontológicos e candidaturas. Poderíamos ser melhores do que isso? Não me faça mais perguntas. Não tão difíceis.
Nas vilas, as crianças resmungam. As bolas ricocheteiam nas grades, na quina das calçadas. Os caminhões desaparecem na fumaça dos ninjas. O vento está acontecendo. No seu cabelo. Ou no seu riso de buquê de flores. Nas mãos dadas do bebê de colo com sua mãe, no ponto de ônibus. Sabem disso os idosos, admirando-se. Sabem os tímidos ipês de uma rua em reforma, esburacado Afeganistão nosso de cada dia.
Há duas árvores que se curvaram, diante da torrente do rio. Um ritmo ditado em silêncio. E entre nove e dez da manhã, elas ficam luzentes. Como um cartão postal destinado a felizes andarilhos, é o único lugar sob a ponte que vale a pena ser visto.
Não temos tempo para nós. Porque não vivemos neste tempo. Somos pessoas sem fim. Reticências, em nossas camisetas, nos fariam personagens dos quadrinhos, heróis com seus símbolos e finalidades. Então, enquanto lanço meu iô-iô, o presente-sônico, o hoje-agora, o eco ressoa. Sons. Que sons. Que somos.
Uma mão muito invisível levava a rua, para baixo e para cima. E depois de muito tempo, a água escoava. E ouço o som da chuva.

Roberto Ferreira: afegão tricordiano.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Todos os dias são letivos


[Crônica tricordiana]


As tardes de sábado, novamente, estas tardes. Os transeuntes não atrapalham ninguém. Vão às compras, às lojas. E saem felizes pelo dia azul afora. É inverno. Meu Deus, penso. A cidade está indo embora. E as pessoas são estas paisagens. Dizem sim ok oi olá talvez e não. Sons da rua, tingida por agasalhos. Por pouco tempo. Mais algumas semanas e retornarão às gavetas.

Atravessando a rua. O tempo seco, uma ou outra nuvem. Fumaça dos fogos nos campos ao longe. Lugar pequeno. Nos vimos três vezes, em locais diferentes. Meus amigos usam óculos escuros. Contam piadas e histórias absurdas. Nos cumprimentamos três vezes no mesmo dia. Rimos nas esquinas, à sombra, e combinamos de montar aquela banda de rock. O tempo estava passando. Serviríamos chá entre uma música e outra? Todo mundo envelhece, até mesmo aquelas mulheres que faziam o coro dos refrões do Pink Floyd naquele show em Pompéia. Você viu o filme e as danças do Michael! A voz dele permaneceu boa até o fim. E a do Bono, fazia tempo que já não estava lá grande coisa.

Por enquanto tomo um café. Minhas novidades, digo-lhes, são as mesmas. Poucas coisas mudam. Os autores dos livros. Platão. Salomão. Caminhadas à tarde e apego ao silêncio. A habitual reclusão pontuada por diálogos intermináveis. Díspares eventos, idênticas intensidades. Por não dizer bom dia, uma senhora brigou comigo. Parou-me na rua duas vezes. Respondi-lhe, sou tímido. E ela ignorou.

Conquanto não quisesse sofrer, a Copa do Mundo não me interessou. Caminhei por vários bairros. Ruas vazias, silenciosas, tensas. A voz grave do Galvão era seguida por vaias distantes, xingamentos e hurras. À margem da pista do ginásio, rapazes enrolavam sua seda calmamente, sob a árvore. Ninguém os incomodaria hoje. Viraram-se, ao mesmo tempo, na direção das casas do outro lado do rio. Aplausos, foguetes e cornetas. Gol. Foi gol. Mas, dias depois, bandeiras cabisbaixas e passos apressados se consolavam na praça e na avenida. O pranto da moça da padaria, do outro lado da rua, me informou sobre a derrota. Conquanto não quisesse sofrer, aquecia minhas mãos nos bolsos, naquelas tardes frias.

Aquelas coisas do coração, das quais falava Salomão, me puseram numa situação estranha e quase hostil, em que os objetos eram frios como instrumentos cirúrgicos. Fiquei tateando algo a que pudesse me apegar e ter algum assunto a dizer. Sinceramente, não tenho nada a dizer sobre assuntos passionais, confessei aos amigos, no banco da praça. Então fiquei ouvindo seus relatos. Dores superadas e outras nem tanto. Durante dias fiquei pensando nisto. E escrevi versos. E conclui: todos os amores são tristes. E só se ama uma vez. E escrevi um e-mail a uma pessoa querida, com sinceros pedidos de desculpas. Fica-se pequeno nestas horas. Tudo tem seu preço. Não sofrer tem seu preço. Todos os amores são tristes. Só se ama uma vez. Minhas mãos tremiam nos bolsos, naquelas horas.

Semana passada foi início de férias, e mais alguns dias, recomeçam as aulas. Na última tarde você pode caminhar nos corredores. As carteiras vazias, os quadros, os cartazes com as assinaturas de letrinhas no canto inferior. Quando se fica mais velho, ter um nome parece exigir tanta responsabilidade. As crianças e os adolescentes. Estão subindo seus degraus. Há tanto sofrimento no mundo e isto já foi dito. Gente nova e já machucada, instruindo-se para a sociedade. A cidade irá se renovar. Um dia terão seus filhos. E as aulas recomeçam.

Olho pela janela, pela última vez no inverno, de onde os estudantes costumavam assistir, nos intervalos, o torneio disputado por suas classes. Desço e fico o restante do horário com os poucos alunos que foram à escola. Os meninos jogavam futebol na quadra. As meninas brincavam. Brigavam entre si, sem motivo. Depois, jogaram futebol, de modo desajeitado. Corriam. Sorridentes. Eram quatro horas da tarde. O sol, frágil, gradualmente glacial, tinha seus raios ligeiramente interrompidos pelas silhuetas eufóricas que esparramavam-se no dia, no pátio da quadra, em sombras estiradas que faziam, dos corpos, gigantes em uma espécie de dança, bonita e triste. Solitária.

Há dias em que eu não tenho palavras, disse a mim mesmo, na última tarde. As crianças iriam crescer, e seriam encaminhadas à cidade. Aos sábados. Iríamos nos ver em lojas e supermercados. Muitos iriam embora, porque as pessoas são estas janelas. Elas teriam seus filhos. Dançariam suas músicas. Iriam se machucar. Correndo ao sol. Aulas recomeçando.

sábado, 26 de junho de 2010

A tarde, pra recomeçar...










A tarde, pra recomeçar
O sábado, pra se nascer
.

[Uma crônica tricordiana]
- versão integral -



I



Pela manhã, o casal trocava insultos. A criança de colo chorava. E em nossas mentes a imagem desenhava-se pelos seus sons, e de repente víamos um bebê espernear, como quem quisesse se libertar deste mundo. Por uma família que não mais existe, confissões emolduradas pelo pranto e pedidos para ir embora. Você acabou com a minha vida... acabou...Por favor, vá embora daqui.
Por Deus, dizem os vizinhos. Parem com isso. Alguém podia se machucar, pensou a multidão que se formava. Versões imaginárias do fato, misto de suspeita e curiosidade, necessitando de algum tipo de comprovação.
Ana corre para o telefone, diz que irá chamar a polícia. Tira a mão de mim, grita. Me deixa em paz, inferno. E o mundo deve girar em sua cabeça, como se estivesse acabando. Ela não sabe, mas à tarde irá ver a chuva de sua janela.

Por favor... vá embora daqui... definha em soluços.



II



Uma festa, parece acontecer em algum lugar, disse o olhar do operário. Era Matias na poltrona do ônibus da empresa. E nós estamos aqui, pensou, indo trabalhar. Faltavam-lhe as palavras certas, mas havia o olhar perdido. Praticava um monólogo, próprio dos que enxergam nas entrelinhas. Dizem que o trabalho enobrece o homem. Mas ele sabia que isso era uma grande mentira. Porque amar enobrece o homem. A arte enobrece o homem. Escrever poemas. Correr na chuva enobrece o homem. Louvar a Deus. Passear com as crianças. São coisas possíveis, ainda que em Três Corações, esse lugar, aqui, cheio de estradas.
Tristemente. Esse lugar aqui, cheio de estradas. E placas pedindo pra gente ir embora, como numa súplica. Vá embora, por favor. Vá embora daqui. Mal imagina, a linguagem da estrada, que pessoas irão correr sorrindo, sentindo o vento no rosto, fingindo fugir de um temporal, nesse lugar. Os olhos se fecham. E o suspiro de cansaço transporta um som de prece.

Por favor... vá...


III



Quem sentirá falta de você, quando você se for? Perguntava-se ao voltar pra casa o balconista Gustavo. Apertado entre braços, ombros, e apostilas de um curso vespertino. Observava o sinal de trânsito. Fechado. Aberto. E sobe-se a rua íngreme.
Quem sentirá sua falta? Perdemos muita gente, pensou. Tricordianos, artistas. professores. Todo dia, as agências funerárias, da janela do ônibus, a gente pode ver. Estão cheias de prantos, santos, flores. Lemos os salmos, procuramos saídas e, mais uma vez por hoje sofremos da maneira que o coração fica mais silencioso, aos soluços.
Reparava em como, nestes instantes, os passageiros oscilavam entre pesares e uma sensação de alívio, de a hora dos que ali estão à janela ainda não ter chegado, tal como a daqueles que, no frio salão, são velados. De tudo, o que mais o impressionava, eram as árvores com seu hino de grilos à tarde. Elas existem alheia a tudo isto. Quem teria escrito tal canção?
O veículo acelera e Gustavo segura o corpo. Dali, os exauridos pela jornada de trabalho vêem as nuvens pesadas. E se admiram com a chuva fina, de um canto a outro. Em toda cidade. Pareceu-lhes que, finalmente, como moradores de um local tão pequeno, agora estavam todos juntos. Embalados numa onda tranqüila.




IV



Um amor que passou. Disse só o estudante Pedro com o sorvete na mão. Um amor que passou. Que não era nada daquilo que se pensaria ser. Nem ele. Ou ela. Estranhos numa cidade pequena. Vidas pequenas, assuntos cabiam em mensagens de celular. Num olá. Em uma certidão de nascimento. Lá se lê que um dia nascemos. E pronto. Tudo começou. Uma identidade que é querer saber o que se é. Isso é tudo o que somos. Acenos de olás nas extremidades da praça. Uma tarde quente e um sorriso que não aconteceu. E que talvez quisesse dizer alguma coisa. Talvez adeus. Talvez tudo bem. E estas coisas juntas. Para ambos. Talvez eu não gostasse do que nos tornamos. Ou do que eu havia me tornado, para estar com você, pensou. Um canal que se perdeu como num toque equivocado no controle remoto. Foi-se também aquele dia, lá longe. Tudo bem. Irá dizer. Nesse lugar. Árvores robustas. Nuvens robustas. Chovia tão fino, como fios de cabelos, como os de criança. Uma pétala brincava no asfalto. Aos sábados, tudo era possível nesse asfalto deserto. Outra estrada escapando. Acelerada. Aqui. Não mais aqui.

V
Ana caminha sobre a parte alta da casa. Laje entre antenas. Fios de postes. Lá embaixo. O rio. O prata deslizando nas pedras da parte rasa, o clube dos militares e o lago congelado pelo calor prateado. De modo muito furtivo, ameaçava formar ondas avermelhadas o poente. E as nuvens estavam lá, do outro lado, robustas.
Ana grita por alguém na outra parte do quarteirão. Por Deus ou algum amigo. Em bairros como esse, mesmo o som é sinal de democracia. Talvez chamasse por alguma criança, avisando-a para esconder da chuva, caso ficasse mais forte. Ou por aquelas pessoas anônimas, que com freqüência vemos correndo e sorrindo, sentindo o vento no rosto. Fingindo fugir de um temporal. Certamente alguém lhe acena, imagino. Ao longe.
Então ela desce e brinca com o bebê, adormecido e exalando aromas de óleos e xampus. Nina-o de um lado para outro, com uma cantiga doce e quase triste. É tudo o que tem o agora. Somente. Nada haveria de tão enobrecedor. Um agora como esse.
Da janela, ela observa o batismo da chuva fina. Achou estranhíssimo que essa cortina nublada tomasse quase todo o céu, de uma hora para outra. Estávamos todos perdoados e limpos, deve ter pensado. Todos perdoados e limpos.






sábado, 1 de maio de 2010

Jardim aos Tuaregs
















Sentiu ao acaso que a tarde na cidade nada oferece. Um clube, uma estrada, uma cidade nova, seja lá que nome dá a teus remédios. Mas os monumentos só lhe faziam pensar em tragédias na vida de alguém que não conhecera nem em sonhos. Embora os nomes soassem confortáveis em ouvidos a eles habituados. Ah, perdão. A cidade. Ela nos torna previsíveis.
A fumaça triste do sábado revolvia pequenas folhas no chão. As coisas maiores de cada dia, entretanto, permaneciam como que intocadas, próprias para uma violenta tempestade. Quietas até então.
Não temos mais dinheiro, o que pode acontecer conosco, aqui nesta parte do Saara, amigo tuareg? Vem esta sensação repentina de o mundo precisar de uma braçada enorme, que o tirasse do profundo oceano do tempo que o arrasta para bem longe longe longe.
Mas trago apenas uma coceira nas mãos, esperando por representações gráficas de meus sentimentos. Eu nunca estive tão machucado e, ao mesmo tempo, cheio de tão pouca dor.
Tenho apenas uma coceira nas mãos que equivale ao tempo que não pode ser medido, após tê-lo intensamente consumido. Tenho o traço no invisível, letras abstraídas de movimentos sutis, construídos como da solidez de um castelo de imagens pulsantes, antológicas, que quer dizer eternas, que quer dizer colher flores, que quer dizer tornar as coisas especiais, guardando-as.
Para onde você olha quando está só? Que nome tem os tuaregs de agora?


Para onde você olha quando está só? Para baixo, pra cima, pra frente...ou para tudo o que mais for possível restar. Que nome se dá à lentidão do reclinar da cabeça quando, alta, a relva se enlaça à açoite brisa? Reverência? Alcançava-me à cintura as ondas de matagais, eu até a borda.
Ouves o sino, os foguetes, o rançoso motor do ônibus, fumaça demorando a esvaecer, tecido escuro na Cabo Benedito Alves unindo-se à nuvem abatida das fogueiras à beira do Rio Verde, as crianças no calor, no trepidar da rua árida, das rochas desbotadas, dos paralelepípedos, meio-fios desfigurados, ilusão de ótica, mananciais no deserto tremulando, vida árida. O que pode acontecer agora, caríssimo tuareg? Crianças de rubras faces, gotículas de suor brotando de narizes sutilmente arredondados, recado indígena na construção do corpo e tempo, microscópicas penugens castanho-claras, teclas de piano no prólogo das sinfonias, estão começando agora e de nada fazem idéia. Desengonçados, também nós; nas trincheiras temos as mãos de meninos tímidos empunhando esfomeadas foices rudes. O rançoso motor da história.
De quase nada sabem, rostos narrando acontecimentos sobre si mesmos, suas origens estampadas como numa camiseta branca de estudante. Em frágeis troncos desnudos, brincam de adivinhar os nomes de candidatos às vésperas das urnas, papéis com fotos e argumentos, no ar. Como em cirandas, confundem os cargos e depois recomeçam, corrigindo onde antes haviam errado. Ruas esburacadas esguichando água e uma placa amarela dizendo algo sobre obras inacabadas.
Você olha então para cima, e o nome da claridade agora é lágrima que arde. São três horas da tarde e não existe sol visível hoje. Talvez chova, porque nos dias anteriores choveu e suas roupas no varal foram encontradas nas árvores do jardim vizinho, entre cercas e animais de penas, assustados e tingidos pela escorregadia terra vermelha.
Você então olha para cima, e talvez chova porque nos outros dias assim o foi. O horizonte era uma mistura de poeira e fumaça e fuligem e sopro contido. O vento demora, e quando chega, suspira esgotado. Trégua ao tempo. Estender o braço para fora de tudo o que nos delimita. O corpo, ele é a fronteira, nada mais do que para além do qual já não se pode mais ir. O braço captura o abraço e só assim se finda o vácuo, abrindo as mãos invisíveis como o desabrochar da flor. O círculo não comporta retorno. É um só, completo. E temos em nós essa coisa circular que gira para fora teimosamente. Como dar uma braçada muito grande, que levasse anos a fio, ou o tempo de uma vida inteira. Uma pequena vida inteira sendo por enquanto uma pequena narrativa de uma tarde.
Você então olha para cima e talvez chova porque tem sido assim durante todo o mês, e a gente fecha os olhos e fica ouvindo o barulho. Poderíamos tapar os ouvidos, abrir os olhos, e seria bonito do mesmo modo. O que existe, existe e nem sempre se pode ver. Vamos ficar esperando tudo recomeçar, pela milésima vez consecutiva. Acordados e de pé, saboreando e sabendo de tudo. Com a sabedoria dos anciões.
Eu não consigo parar de pensar. Eis o dia. Eis o tempo. Ei-la, ó vida, tudo intacto como no primeiro dia de todos os tempos. O corpo, mais sólido que a matéria. E o espírito, pairando sobre as águas.

“...e também não havia homem para lavrar o solo. Mas uma neblina subia da terra, e regava toda a superfície ...”(Gênesis 2.5-6).