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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Os Homens que não amavam as Mulheres...



Atenção, este não é um filme convencional. É um filme de David Fincher. Então isto já diz muito. Possui os seguintes elementos: investigação, ações judiciais, serial killer, nazismo, citações bíblicas, rituais macabros, traumas familiares, hackers, fetichismo e snuff filmes. Enfim, um filme ultracontemporâneo, com direito a toda salada que o termo – que remete a uma fusão do novo com tudo o que o antecedeu – possa significar.
O roteiro possui algumas falhas. Na verdade, alguns saltos lógicos, a qual não irei detalhar pelo simples motivo de que há um certo prazer em identificar estes pontos aqui e ali em filmes tão bons quanto este. Mas darei a dica: a multiforme personalidade da protagonista, os motivos que justificam a investigação do avô, a personagem tão misteriosa quanto seu desaparecimento. Estão aí três situações. Procure por si mesmo identificar e avaliar a estrutura destas histórias.
Sim, o título brasileiro não ajuda muito. Na verdade atrapalha, porque denuncia um tipo de coisa que deveria ser sugerida no filme, de forma natural. Talvez fosse melhor ter deixado “A garota com a tatuagem de dragão”, ou coisa que o valha.
Mesmo assim é um filme altamente recomendável pela força que os protagonistas possuem. Seja pela sua história de vida ou pelo modo que tentam superar as dificuldades com que lidam, fazendo uso de uma intensa agilidade, tanto intuitiva quanto intelectual.
A propósito, a introdução do filme é belíssima, com uma versão de Immigrant Song, do Led Zeppelin. Há também uns toques industriais na trilha, que tem a participação do Trent Reznor. E isso fica perceptível quando, no filme, vemos um sujeito usando a camiseta do Nine Inch Nails.
Segundo consta no cartaz, o roteiro é baseado em um livro, em três partes, cujos filmes já foram realizados na versão original - sueca. Independente disto, vale conferir este primeiro, na linguagem ultra underground de David Fincher. Faz valer cada minuto.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Nós que aqui estamos

Nós Que Aqui Estamos, Por Vós Esperamos         (1999)
           
            O século XX em imagens. Vagando entre o onírico – que remete à influência de Freud – e o realismo destrutivo de um século marcado pela tecnologia e guerras – evocando Hobsbawm – o diretor Marcelo Masagão utiliza-se de um variado arquivo de imagens (cinema, fotos, trechos de documentários, artistas e personalidades) que, a seu modo, muito mais do que simplesmente contar, transporta-nos para os fatos importantes do nosso tempo na medida em que gera no espectador uma aproximação com os personagens anônimos – pessoas como nós – que participaram desta história. E isto contribui para realçar seu valor humanista  num período em que o significado da vida, de tão banalizado, passa a não ter valor algum.
Está aí, a meu ver, o mérito do filme que, apoiado em uma bela e eficaz trilha sonora – como que composta por encomenda – de Wim Mertens e André Abujamra, se em alguns momentos escorrega por causa de excessiva repetição, destaca-se pela sua criatividade, demonstrado na interessante apresentação dos temas : arte e guerra, sonho e realidade, vida e morte, tragédias, revoluções, golpes, ditaduras, nacionalismos e movimentos sociais; ingredientes que retratam o século XX a partir da 1a Guerra Mundial, e o desenvolvimento tecnológico alcançado no pós-guerra.
Considerado um filme ensaístico (ou filme memória), nos fornece um bom panorama – parafraseando Eric Hobsbawm, que ao lado de Freud, é um dos mentores espirituais da película – do que foi o “breve século XX” e de como o decorrer desta história se reflete nos dias atuais.
Destaque: o Capítulo 6, dos 12 aos 21 minutos (Temas: Muro de Berlim, Garimpo, Revolução Cultural Chinesa, Crash de 1929, etc).

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Filmes de ontem e hoje:

ANTES DA CHUVA




“O CÍRCULO NÃO É REDONDO...”

As rupturas fronteiriças ocorridas em âmbito global geraram um novo filão cinematográfico proveniente da intensa reformulação geográfica das últimas décadas, geralmente com toques neo-realistas (remetendo à Roma Cidade Aberta, de Rosselini)  que trazem às telas os dramas de países renascidos das cinzas (vide a adaptação do livro Terra e Cinzas do afegão Atiq Rahimi), mostrando sob novas perspectivas o impacto da guerra no cotidiano, abordando inclusive a animosidade entre pessoas que em certo período estabeleceram graus de relacionamento (vide o bósnio-esloveno Terra de Ninguém, este porém fazendo uso de um inusitado componente : o humor).
          Menina dos olhos do gênero, apesar de já ter quase 20 anos desde sua realização, o macedônio Antes da Chuva continua atual. O filme é dividido em três partes curtas, não lineares, que se complementam e quecerto modo contam histórias de amores interrompidos pela violência. Palavras , a primeira,  mais ingênuahistória de Zamira, jovem albanesa que busca abrigo em um monastério e recebe a ajuda do jovem padre Kirill. Zamira, que virou a imagem do filme,  com sua inesperada camiseta Adidas de e equilibrada, narra a parece querer nos  alertar para o fato de que a intervenção internacional em um país à beira do colapso só é relevante após considerado seu potencial financeiro.
        Rostos, a segunda história ( quase desnecessária de tão fraca ), traz, entre algumas fotografias de atrocidades de guerra,  o atormentado fotógrafo Aleksandar e sua insossa relação com a amante, às vésperasretornar a sua terra natal. Fotografias, em seguida, transporta não só o marasmo da segunda história mastambém o protagonista até a Macedônia, onde passa a ser testemunha ocular dos dramas vividos por seupovo. Essa água morna do “sujeito que faz fama e retorna ao lar” termina quando o insípido fotógrafo, na metade da terceira história, revê, num vilarejo rival, uma amiga de infância, num lúgubre e tenso reencontro, de emoções reprimidas pelas circunstâncias.
        Intolerância, conflitos étnicos religiosos, guerra civil, este filme de 1994 nos ajuda a compreender a dramática situação da Iugoslávia, cuja implosão, causada pelo fim do comunismo, provocou uma ebulição da temperatura política nos Bálcãs, culminando na genocida campanha dos Sérvios para conquistar territórios, etnia esta historicamente conhecida pela mania de perseguição desde os desastrosos resultados na Primeira Guerra Mundial ( foi lá onde tudo começou, com aquele tiro no arquiduque Ferdinando).
          A Macedônia, que era uma das repúblicas que compunha a Federação Iugoslava (as outras eram: Sérvia, Croácia, Eslovênia, Montenegro, Bósnia-Herzegóvina) passou por uma guerra civil, anunciada no filme (e que infelizmente não ia terminar, tampouco expressar todo o massacre ocorrido nos anos seguintes) com o embate entre macedônios e albaneses, que, de certa maneira, era também entre cristãos ortodoxos e muçulmanos , reflexo de heranças históricas dos sucessivos povos conquistadores que ali estiveram ao longo dos séculos, resultando em um caldeirão multicultural étnico-religioso que estourou com esfacelamento do comunismo na Europa Oriental.
        Um filme importante que, mesmo irregular, foi mais criticado pela sua estética de videoclipe, sendo por isto considerado “da moda”. De qualquer forma há os atores e principalmente o peso histórico do tema, além do desfecho arrebatador, poético, singelo, ingênuo e ao mesmo tempo moderno, carregado de simbolismo : na chegada da chuva (aquela do título), a água como sinônimo de purificação, como a nos mostrar ( e nos lembrar ) que enquanto criamos e destruímos – e isto produzir História – , inevitavelmente sob este mesmo céu busca-se a liberdade, a redenção e a paz. Esta última, uma relíquia que, configurando-se como exceção ao se apoiar na importância de algo tão corriqueiro (a chuva) sobre o qual o homem não exerce domínio algum, mais que sugerir, parece comprovar o fracasso de todas as verborrágicas, pretensiosas e tendenciosas ideologias humanistas frente à magnitude absoluta de um legislador maior presente nas leis da natureza. E é esta frágil condição humana, traduzida em sua finitude linear bastante explicitada nas três histórias, que faz com que o círculo, tão mencionado ao longo do filme, seja abstraído de sua forma original, interrompendo-se. Ou fazendo jus às palavras do mentor de Kiril, torna-se ele também, o círculo, finito, passageiro.      




sexta-feira, 16 de julho de 2010

Filmes de ontem e de hoje:




AVATAR:
PARA ENCHER
OS OLHOS



Até bem pouco tempo a palavra avatar podia ser usada, basicamente, para se referir a três coisas: à crença hinduísta na descida de um ser espiritual à terra, ao desenho animado em estilo mangá ou, ainda, ao personagem que os usuários utilizam ao se associar à rede de relacionamentos virtuais Second Life.
Isso mudou a partir de 18 de Dezembro de 2009, data em que Avatar, o filme, foi lançado. O termo, assim como “nirvana” remonta a uma certa banda grunge dos anos 90, a partir de então deverá designar um marco do cinema.
E o que há de tão especial neste filme, além de ser o mais caro da história, já que foram necessários quase 500 milhões de dólares para sua realização? Em primeiro lugar a direção é de James Cameron, autor de Exterminador do Futuro (1984), Alien-O Resgate (1986) e Titanic (1997). Em segundo, foi produzido para ser visto em 3D, um tipo de projeção tridimensional que busca provocar no espectador um mergulho nas imagens, em definição e profundidade, dando maior realismo às cenas que, sendo artificialmente produzidas, proporcionam uma nova maneira de experienciar cinema. Por isso a aspiração de Avatar não é pouca: pretende se consolidar como um novo padrão de linguagem.
Na tela, florestas fluorescentes, seres e animais exóticos compõem um mundo multicolorido e exuberante. Para adentrá-lo, precauções foram tomadas para que os espectadores não sentissem tonturas ou dores de cabeça durante a exibição, que foram desde os anos 50 empecilhos para este tipo de projeção. Consta que, no Brasil, temos poucas salas com telas especiais para o 3D – somente em São Paulo e em Curitiba, dizem – e, por isso, os efeitos são amenizados. De fato, para quem assiste nas poltronas mais próximas, nos primeiros minutos a sucessão de imagens ágeis, com viradas bruscas de 360 graus, pode causar desconforto, como se olhos e cérebro, ainda não habituados ao cenário, fossem mecanismos antiquados, incapazes de captar e interpretar adequadamente a ação que se desenrola nas cenas panorâmicas. Mas é de supor que este efeito, sendo momentâneo, também o seja proposital.
Todo este apuro técnico garantiu recordes de bilheteria, mas não estatuetas de Oscars que, em 2010, foi para Guerra ao Terror. Mas talvez, para o diretor, o reconhecimento da Academia nem seja tão importante assim, afinal, este é o filme da vida de Cameron, que esperou mais de dez anos para que fosse desenvolvida a tecnologia – inclusive com sua ajuda - necessária para realizá-lo. É como se fosse seu Star Wars (1977), lembrando aqui o filme que o fascinou e o fez entrar para o ramo.
A história de Avatar é simples, previsível. É sobre seres humanos que pretendem invadir o planeta Pandora, em busca de um valioso minério. Mas para sobreviver à sua atmosfera, os humanos têm de entrar em uma máquina onde, através de projeção mental, assumem seu avatar, que é a extensão da pessoa em um outro corpo, no caso, em um corpo dos seres Na’Vi, habitantes de Pandora. É a releitura do mito do colonizador, do homem branco que se envolve com uma cultura que, ao lutar para manter seus valores, se torna hostil.
Atração principal, a caracterização dos Na’Vis, apesar de comentários depreciativos de serem uma fusão mal feita de Smurfs e Thundercats, é perfeita. Azulados, esguios, com cerca de três metros de altura e feições que mesclam indígenas, africanos e felinos, estas criaturas azuis proporcionam momentos poéticos e até românticos, capazes de levar o público mais exaltado a aplaudi-los em cenas tocantes. Até mesmo o Gollum, a versão má do Sméagal de O Senhor dos Anéis (2001-2003), foi superado. Citação, aliás, bastante apropriada, já que tal qual na obra de Tolkien, foi criado um dialeto totalmente original por uma equipe de lingüistas e fonoaudiólogos, com todos os requisitos gramaticais, sintáticos e morfológicos.
Como nas obras anteriores de Cameron, a protagonista, Neityri, é corajosa e durona como Ripley (de Alien) e Sarah O’Connor (de Terminator), mas bem mais pueril que suas antecessoras. Curiosamente Sigourney Weaver está no elenco, dessa vez como uma pesquisadora, deixando a infantaria para Michelle Rodriguez, de Lost (2005).
Já as referências que remontam à simbiose entre homem e natureza, ao animismo indígena ou ao misticismo holístico, podem soar pedantes, pois lembram os clichês discursivos das causas ecológicas e as doutrinas algodão-doce da Nova Era. Mas isso não compromete o entretenimento. E a simbologia, não apelando para apologia, não relativiza os conceitos de bem e mal, prevalecendo assim o tratamento dado à diversidade cultural, à busca do convívio pacífico entre civilizações.
Se o roteiro tem sido criticado por se assemelhar a Pocahontas (1995), O Último dos Moicanos (1992) e Dança com Lobos (1990), os efeitos especiais deverão prevalecer e ocupar o mesmo papel que fizeram de Matrix (1999) uma obra de referência copiada até hoje. Mas, afinal de contas, acaso Titanic tinha roteiro?

sábado, 10 de julho de 2010

Filmes de ontem e de hoje:


ÚLTIMA PARADA 174
Qual seria o sentido de assistir a um filme em que todos já sabem do trágico desfecho? Quando a pergunta se referia ao hoje piegas Titanic (1997), o resultado foi o sucesso que até a múmia-que-canta Celine Dion desfrutou. Quanto a Carandiru (2002), apenas bons atores e o Santoro, o salvador da pátria, nada mais.
Em Última Parada 174, estão lá os elementos que caracterizaram alguns dos recentes e expressivos filmes nacionais. Drogas, sem o requinte, o glamour modista da geração grunge skatista americana de Kids (1995) de Gus Van Sant, que virou a cabeça de muita gente – jovens locais, inclusive. Drogas e a miséria nua e crua, a favela, o tráfico, prostituição, violência, palavras chulas. Nada de idealismos, de ídolos pop. Estes se foram com a idéia de família. O engajamento aqui é o de ser bom de pontaria aos dez anos de idade. Outro elemento importante: a presença sempre peculiar da Igreja, esta, cuja atividade terapêutica mais uma vez promove transformações e impede a implosão da sociedade em uma completa selvageria e carnificina. Em Carandiru, Central do Brasil (1998), Cidade de Deus (2002) e Linha de Passe (2008), é muito sutil, mas evidente esta função civilizatória, redentora.
O forte roteiro do filme nem precisou do cabide adotado por Tropa de Elite (2007), a saber, um narrador dando sentido às seqüências. Como nas obras de Fernando Meirelles, é a câmera sozinha quem conta a história, e isto basta. E aqui a história é a de dois jovens, em final de adolescência, entendendo-se por meio da linguagem quase gestual que lhes foi legada pela vida em uma cidade grande. O ódio no coração, a língua mordaz, a pele de hematomas.
O Alê da Candelária, conhecido como Alê Beijo, devia dinheiro ao Alê Monstro, o Alê do Comando Vermelho. Os vemos crescer em semelhanças, de idade, orfandade, histórias, e algo mais, muito mais sutil. Quando em certa cena, imortal cena, a mão é estendida ao outro, a cumplicidade entre os dois suplanta as divergências, e o sublime predomina sobre o lamaçal. Para ambos, entretanto, permanece a inaptidão diante das coisas mais simples, como a bondade e a verdade. Qual seria, por exemplo, a utilidade de uma mãe? A lei dos estômagos vazios, do vício, da fuga, da constante fuga e a permanência da idéia do improviso, esta lei diria ser uma oportunidade, só não se sabe para que ou até quando, já que a novidade de hoje, o eterno e mesmo dia, é preencher as próximas horas de calor com dinheiro, pequenos furtos, talvez homicídios, praia e muito provavelmente mulheres. A urgência do saciar das volições. Esse é o único modo de viver a vida conhecido.
Alê Beijo quer ser amado, quer uma mulher que se importe. Soninha, a tal luz no fim do túnel, não é mais do que poderia ser. Uma companhia para horas vagas, promiscuidade no intervalo das promiscuidades. Como qualquer pessoa com avidez pela vida faria, Alê usufrui todas as possibilidades afetivas viáveis a alguém que tenha seu atribulado histórico. E todas elas, tão escassas, se despedaçam como um copo de vidro, objeto que atua como uma espécie de gatilho em sua história, e que é a metáfora de sua própria vida, a de uma criança perdida cuja base emocional passa a ser agora uma arma na mão.
Não há meio termo. Para Alê Beijo, não há um lugar onde se possa estar e, ao mesmo tempo, ser querido. Seu personagem, coberto de um senso de justiça que lhe é constantemente negada, espanca meninos de rua e prostitutas, seqüestra um ônibus, dá lições aos passageiros ao criticar o racismo dos policiais. Trata-se de uma situação que ganha ares surreais, até burlescos. No vidro do ônibus o rapaz de coração partido manda escrever com batom que às 19 horas ele “vai matar geral”. Nem os supostos reféns, a polícia ou o próprio criminoso parecem compreender a gravidade do que ocorre.
Sem tempo para eufemismos, o crime ganha um corpo, uma espécie de refrão desengonçado entre uma sucessão de ruídos e palavras duras fora de compasso. Resta o olhar do criminoso, pasmo, infantil, inocente. De nada sabe, nada lhe é dado a saber. Não se dá conta dos fatos, da multidão de braços e palavrórios, da babel de ações que o envolve, do abraço que quer matá-lo.
São cenas marcantes, alternadas com imagens reais. Panorâmicas do Cristo Redentor e sua beleza tumular, como a nos lembrar do concreto da vida lá embaixo, transcorrendo normalmente para tantos, ao mesmo tempo em que é interrompida para outros. Pessoas correndo atrás do carro de polícia, personagens e lamentações, televisores arautos da má notícia e comoção geral. Devia ter pena de morte, alguém diz. Matar não adianta, responde a voz ao fundo. Como filmar seriamente uma cena burlesca? Bruno Barreto, o diretor, deixa acontecer do jeito que tem de ser, sem sentido, amadora, frágil, lacunas. As lacunas da vida real, tão falha, tão miserável. O que conta não é o que se conta, mas como. E é este “como” que faz desta uma obra-prima, como pouco se viu no que agora podemos finalmente chamar de cinema brasileiro.

Desfecho conhecido, a pensar se poderia ser evitado. Mas não ignorado. 

Texto revisado em 06/01/2011.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Filmes de ontem e hoje: Babel

As feridas abertas de Babel

O grande nome do Oscar de 2008, que não levou a estatueta de melhor filme, é mais um enredo de narrativa fragmentada do diretor Mexicano Alejandro Gonzalez Iñarritu que, desta vez, explora a idéia da incomunicabilidade entre os seres humanos, filhos da tecnologia e dos relacionamentos virtuais.
Trata-se de quatro histórias que se desenvolvem paralelamente, aparentemente sem um ponto em comum, mas que aos poucos vão se entrelaçando e ganhando corpo. Estilo este que ganhou notoriedade com Short Cuts (1993), de Robert Altman, e influenciou tantas boas obras, incluindo 21 gramas e Amores Brutos – imperdíveis –, de Iñarritu, que compõem sua trilogia do caos.
Neste, um casal americano passa uma temporada (férias?exílio? terapia?) em um deserto marroquino. Pretendem se curar de uma perda que abalou seu relacionamento. Por que viemos para cá?, pergunta a mal-humorada Susan (Cate Blanchet). Para ficarmos sós, responde desolado o enrugado Richard (Brad Pitt, com olheiras que remetem a Benicio Del Toro em 21 gramas).
Perto dali, um humilde camponês presenteia, com um rifle, seus dois filhos, Ahmed (Said Tarchani) e Youssef (Boubker At El Caid), garotos na puberdade. Para espantar os chacais que devoram suas cabras, ele alega. Essa arma irá desencadear os eventos que ligarão os protagonistas. Aos garotos pertencem a parte mais bela do filme, o vento no topo da montanha, pessoas livres, sem dor.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, a imigrante mexicana ilegal, Amélia(Adriana Barraza), que trabalha como babá, precisa visitar seu país para participar da festa de casamento do filho. Como não consegue uma folga do trabalho, leva consigo os filhos de seus patrões. Detalhe: um casal de crianças lourinhas, angelicais. Atenção para esta história. Aqui está personificada a colonização ao contrário. Ou seja, os brancos, desta vez, são vítimas da indolência e irresponsabilidade dos nativos do Novo (Terceiro) Mundo. O choque cultural é inevitável. Novamente, aqui, os adultos atrapalhando tudo. Voltar para os EUA com um motorista bêbado e sem visto de entrada? E o pior, com duas crianças americanas, adormecidas no banco de trás? Quem escreveria um roteiro destes? Bem, em se tratando dos filmes de Iñarritu, tudo é possível. Os personagens estão no limiar de sua vida. Vivendo em total vertigem, diria um poeta tricordiano marcatiano. Obviamente que o tema da imigração não é novo. Crash (2005), filme que você poderia assistir em slow motion só para apreciar melhor a obra, dissecou o assunto. Entretanto, a cena do deserto é muito sugestiva. Qual o lugar das crianças num mundo onde os adultos não sabem aonde ir?
Em Tókio, a adolescente Chieko quer existir. Seu tumultuado relacionamento com o pai (um personagem chave, quase um arquétipo do insistente Deus cristão e seu amor incondicional) acentua a já deficitária comunicação entre eles. Surda-muda, traumatizada com a perda de um parente, ela deseja ser amada, a seu modo. E é ela quem torna a linguagem uma presença de importância quase sólida. A linguagem do toque. O mesmo toque ignorado pelo entediado casal americano no ônibus marroquino, para ela, teria um sentido redentor. Decepcionada com a arrogância das pessoas que possuem todos os sentidos, as chamadas pessoas normais, Chieko sai com os amigos em busca de experiências. Seu comportamento auto-destrutivo é quase criminoso. À ela pertence a segunda cena mais angustiante da obra. Seu deserto não é como o da mexicana à procura das crianças. O dela é o ritmo frenético dos jovens de uma danceteria multicolorida, embalados pelo som que ela não pode ouvir. Sua nudez, tão explorada o tempo todo (chega a ser ultrajante, a ponto de o expectador se perguntar “por que?”) tem a ver com o fato de ela querer se esconder. O único momento em que é capaz de emitir um som, ela chora.
Pessoas no limite. Culpas. Desentendimentos. Um certo clima de ameaça terrorista e arrogância americana que, se pretendiam ser elementos pertinentes da trama, não foram bem sucedidos, secundários que se tornaram tamanha a austeridade dos dramas menores, que dizem respeito ao mundo particular das pessoas comuns.
Babel é uma fábula sobre o homem moderno. Sobre as crianças que devemos ser, seja para nos libertarmos dos pesos existenciais, seja para alcançarmos o Reino dos Céus. Fazendo uso do inglês, espanhol, berbere, japonês ou da linguagem dos sinais, é um filme onde as imagens falam num idioma à parte, transcendendo a importância narrativa das próprias histórias. Talvez seja a maneira que Iñarritu encontrou de partilhar sua fé, ainda que nas entrelinhas, como se sussurrasse.



“Venham, desçamos e confundamos a língua que falam, para que não entendam

mais uns aos outros. Assim o Senhor os dispersou dali por toda a terra...".

Gênesis 11:7-8 NVI

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Filmes locados por engano:






DISTRITO 9







A trama: uma gigantesca nave espacial surge sobre a cidade sul africana de Joanesburgo. Como um ônibus encalhado, cujos pedaços vão caindo na população, durante três anos ela fica lá, parada e esfarelando. Até que uma força especial decide invadí-la e travar contato com as maltrapilhas criaturas que ali se encontram.

Peculiaridades extraterrenas:
o aspecto: semelhantes a “camarões” e emitem um som incômodo, como se as palavras borbulhassem.
o comportamento: São ludibriados facilmente, como se fossem débeis mentais,
as habitações: mistura de campo de refugiados com favelas, ou tudo isso junto.
o cumprimento da lei: a ordem de despejo que expulsa os ETs de suas moradias. E eles ainda são forçados a assinar um documento. Repito: eles são forçados a assinar o tal documento!!!
as expressões faciais: às vezes, as criaturas lançam um olhar de piedade idêntico ao daquele gatinho do Shrek.

Peculiaridades humanas:
- a transformação gradual de um agente terráqueo em um extraterreste. Lembra o filme kafkiano de Cronemberg, “A Mosca”, só que sem Cronemberg e o Jeff Goldblum. Ou seja, pouco se salva.

Comentário pessoal: Se fizeram com que o E.T. fosse crível, se fizeram com que Jurassic Park fosse crível, se fizeram com que Lord of The Rings fosse crível, se fizeram com que Avatar fosse crível, porque afinal, ainda que isto seja dito por alguém beirando os quarenta, porque não se pode exigir que também sejam críveis os demais filmes de ficção, sejam eles sobre heróis ou extraterrestres, como esse fajuto Distrito 9?

Obs: a curiosidade fica por conta da polêmica envolvendo a proibição do filme na Nigéria. O roteiro traz nigerianos fazendo rituais vodus com partes de membros alienígenas. Tráfico de armas e prostituição – entre as espécies – reforçam o boicote.

Para debate: apesar da enorme falta de bom senso da obra, que causa dificuldade em assisti-la na íntegra, há um questionamento ético interessantíssimo aqui. A ética contemporânea lida com discussões sobre a legitimidade da matança de animais para o consumo humano. Sob esta perspectiva, que tipo de tratamento adotar em relação aos extraterrestres, caso realmente existam? No filme, sociólogos e organizações dos direitos humanos se opõem às agressões que a população local e as autoridades infligem aos monstrengos. Ainda que os motivos dos conflitos possam parecer risíveis – e de fato o são –, a indagação é pertinente pois, para efeitos legais, os atos importam mais que suas motivações: os seres agem como gangues de marginais, roubando tênis, celulares e ração para gatos.

Filmes de Ontem e Hoje:


Ensaio sobre a cegueira










"Um ensaio sobre a visão”

Em sua obra “A linguagem secreta do cinema”, o crítico Jean-Claude Carriére nos conta um episódio singular ocorrido no início do século passado, quando se dava a exibição de um filme numa das colônias francesas na África. Alguns convidados, por questões diplomáticas, compareciam às sessões, mas, por serem muçulmanos, sua rígida tradição os impedia de presenciar representações de formas e da face humana, tarefa esta reservada única e exclusivamente a Deus, no caso, a Alá – não por acaso adotam um alfabeto ornamental para suprir esta falta de figuras. Assim, sentavam-se em suas cadeiras e lá permaneciam, de olhos fechados.
Num momento em que observamos o caos da Faixa de Gaza e os conflitos entre israelenses e ativistas turcos com o mesmo interesse e inclinação que temos em relação ao caos dos fevereiros da Marquês da Sapucaí, somados ao insulto visual dos programas televisivos em que câmeras são estrategicamente instaladas numa casa em que a lógica do Hobbes (“o homem lobo do homem”) vigora, ficamos a pensar no verdadeiro significado da visão e se, caso fôssemos subtraídos de tal capacidade, dela sentiríamos falta já que não a usamos de forma, digamos, crítica.
Em “Ensaio sobre a Cegueira” o gênio Fernando Meirelles – por causa dele podemos lançar fora quase tudo o que se produziu no tal “cinema” brasileiro desde os tempos de “O Pagador de Promessas” – audaciosamente nos mostra isto mesmo que o título sugere, um ensaio de como o ser humano agiria se, repentinamente, perdesse sua visão. É lógico que aquela história de ser fiel ao livro é uma bobagem e fica até engraçado quando nos extras vemos um apreensivo Meirelles acompanhar atentamente as palavras de aprovação pronunciadas, na poltrona ao lado, por ninguém menos que o escritor Saramago, autor da obra em que o filme se baseou. A versão que a ele foi mostrada sofreu várias alterações, até alcançar o formato que tem hoje, mas de modo geral, a essência está lá, pessoas desesperadas, com a visão submersa numa espécie de cegueira branca, num “mar de leite” que, atingindo o grau de peste iminente, faz com que o governo adote medidas extremas, confinando em alojamentos especiais os que dela são portadores.
É claro que ainda não inventaram um filme que superasse o livro. Mais difícil ainda quando este é escrito numa prosa mordaz, sem pontuação, e que os personagens sequer possuem nomes próprios, mas títulos como “a mulher do médico” e “o velho da venda preta” ou até mesmo “o ladrão”.
Mas o compromisso de se aproximar o máximo do original foi cumprido. O que justifica o caos de imagens retorcidas e propositalmente brancas, transparentes, como reflexos do reflexo de espelhos ofuscados por alguma claridade – a da caverna de Platão, talvez –, acompanhadas pela trilha originalíssima do Uakti (outro ponto positivo) e pela atriz Juliane Moore, pálida, aquática como uma água-viva, flutuando na tela. Ninguém mais poderia ocupar este papel, ninguém. A ela caberá a missão de encontrar, nas profundezas emocionais do desastre iminente, a cumplicidade necessária para que se possa dar forma não ao mundo, mas à esperança. O que ela faz quase como um idealismo milagroso, em meio à ordem maltrapilha vigente.
A espécie humana, aqui, se aproxima gradualmente da animal; um pouco mais evoluído, conquanto ainda possua linguagem, embora esteja tão próxima da bestialidade que seria uma questão de tempo até que todos passassem a grunhir. É inversamente proporcional, por exemplo, ao que ocorre com o apóstolo Paulo (episódio citado no filme) que, no contexto cristão, somente depois de ficar cego é que passou de fato a enxergar.
No filme, a válvula de escape para a ausência de fé, como não poderia deixar de ser, é o instinto, que irá alertá-los sobre sua necessidade mais básica, a de se alimentar, o que possibilitará a provisória manutenção da vida – depois também virá o sexo, ironicamente feito “às claras”, tal como os Cínicos da Grécia antiga – mesmo que, assim como nos animais, não se saiba exatamente porque, como aliás em muita gente que anda por aí, como zumbis que pronunciam o mantra “alá-lá-ô, alá-lá-ô”.
E é pela comida que as mulheres tem de se submeter às violências do grupo detentor dos estoques. Cena forte do livro e que em cinema foi em muito amenizada, deixa também evidente o talento de Meirelles em realizar cenas polêmicas sem precisar de toda aquela apelação características de produções nacionais e que, de certo modo, poderia mesmo ser adotado como padrão, evitando, de uma só tacada, o surgimento de futuras beldades da poluição visual como as Lucélias Santos, Veras Fischers e Sônias Bragas de outrora.
Ali, a relação de poder entre os detentores do alimento e os estômagos famintos se torna um microcosmo, que é também a realidade que a grande massa de trabalhadores enfrenta já que, à recusa ao trabalho implica à morte por inanição. Esta é a lei, o status quo, a democracia do lento genocídio, enfim, porém desvelada. Não se pode vê-la porque se é cego, mas pode-se senti-la nas carnes.
Então é mais um ponto já que o problema não é apenas a cegueira visual, mas de um outro tipo, de outra natureza: a cegueira da cegueira. Mesmo estes cegos não são capazes de compreender que apenas mediante a colaboração mútua é que suas vidas poderiam melhorar, ao menos o suficiente para se estabelecerem como uma nova sociedade – a de cegos agora – e aprimorar suas deficiências a ponto de reiniciar e construir uma nova civilização. Por isso é tão chocante o filme de Meirelles (ou o livro de Saramago). Por tocar a dolorosa e trágica ferida por trás da metáfora: já estamos neste estágio de cegueira e seria preciso reaprender a enxergar, processar as coisas, repensá-las e relacionar-se com elas, de modo a modificá-las em toda sua extensão. Daí que enxergar passa a ser também viver, existir, e existir de modo verdadeiro, milagroso e correto. Enxergar passa a ser virtude. Talvez a mensagem mais cruel e bela do filme.
Em uma cena marcante, certo personagem ao ter sua visão restabelecida por algum motivo misterioso, exclama ao ver o rosto de uma amiga, de quem até então apenas conhecia a voz, presente nos maus bocados do alojamento de cegos. E ele exclama entusiasmado: “você é linda!!! Tudo é lindo!!!”. Como se tivesse sido presenteado, no caso, com a imagem de um simples rosto. Como diziam os antigos gregos: estamos cercados de tanta beleza. Esta que para eles era o Cosmos e que originou a palavra cosmético.
Quando Carriére, citado no início do texto, escreveu seu livro, alegou que o único propósito era nos ajudar a abrir um pouco mais nossos olhos. Já Saramago nos alerta: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Estamos vendo demais e enxergando de menos. O que constitui, aqui, uma grande responsabilidade. Talvez por isso, não por uma questão de prudência ou reverência, mas pela mais pura covardia mesmo, muita gente opte por ficar como os tais espectadores muçulmanos. De olhos bem fechados.

domingo, 23 de maio de 2010

Enquanto isto, na TV: "Reine Sobre Mim".

Reine sobre mim
A história de Charlie, um homem que, traumatizado pela trágica perda da família, adota uma vida reclusa, caracterizada por dissimulações e lacunas da memória. Após alguns anos, Johnson, um amigo de faculdade, o reencontra e tenta ajudá-lo. No processo, compreende que crises e decepções não são conceitos tão distantes assim de sua realidade, aparentemente estável.
Um belo filme sobre amizade e recomeços.









Ponto alto:
- Adam Sandler, impressionante.
- O ator Don Cheadle.
- Os diálogos instrospectivos.
- Os diálogos nostálgicos sobre bandas e discos de vinil.
- Johnson e Charlie tocando bateria e guitarra, e jogando videogames.
- A trilha sonora, que inclui “Stop Your Sobbings” do Pretenders.

Curiosidades:
- A tragédia em questão é a de 11 de Setembro, dos atentados terroristas no World Trade Center. Diferente do habitual, que oscila entre atos heróicos e revanchismos bélicos, aqui vemos o impacto do episódio na vida pessoal do personagem, sua história e seus dramas particulares.

- Repare na semelhança de Adam Sandler com Bob Dylan, na capa de Blonde On Blonde (1966).

sábado, 22 de maio de 2010

Filmes de ontem e hoje:




SANGUE NEGRO

"Lobos em pele de lobos"


Como se a realidade fosse feita de um total negrume e tudo o que houvesse no pensamento adormecido do universo fosse um quadro negro e estático, as imagens vão queimando a tela, intrusa aparição, ferida que ao se abrir cria figuras, objetos, cenários, seres humanos. Existe o deserto, existe o petróleo. E existe o homem. Existe a dor deste invasor ante a monstruosidade de uma luz que parece pecar, suando-lhe nas faces, afogando-o no pó, no árduo trabalho de garantir sua sobrevivência. Existe o escândalo das coisas silenciosas, e existe o silêncio, propriamente dito, da pequenez da vida humana.
Assim, surgem os primeiros, longos e silenciosos minutos de Sangue Negro. Inesquecível como em 2001-Uma Odisséia no Espaço, de Kubrick. Mensagem direta que percorre todo o filme: a aridez humana, do deserto, do solo, do homem horizontal.

Daniel Day-Lewis incorpora o personagem, Daniel Plainview. Ganancioso, astuto, uma serpente rastejante, esgueirando-se nas imundícies do lodo negro, lamaçal que lhe é a razão de viver, de onde extrai sua fortuna, mesmo que precise fazer uso do angelical rosto do filho adotivo em seu favor. Lobo na pele de lobo, apoiando-se na pureza de um cordeiro para obter vantagem nas negociações. O ápice da relação entre pai e filho lembra os momentos brutos de “Carta ao Pai”, de Kafka. Na cena crucial que expõe suas divergências morais, o pai e o já adulto filho, protagonizam o diálogo de libras (linguagem de surdo-mudo) mais visceral da face da terra. Diálogos que pontuam o filme, poderosos, nunca desperdiçados, tão cortantes quanto confessionais. Às vezes são usados para preparar o terreno. Outras, para disparar o vigor de sua franqueza atroz. Vejo o pior das pessoas, diz Day-Lewis. Apenas quero enriquecer e me isolar, confessa o magnata do petróleo. Um reconhecimento de que, mesmo rico, é incapaz de lidar com o poço negro que constitui sua amarga personalidade. Contrariando sua ascensão social, seu lado emocional despenca num abismo corroído, já que não pode comprar a paz interior, resgatar a harmonia familiar ou, simplesmente, ter amigos. Junto a Plainview, o jovem pastor Eli, empenhado na construção da Igreja da Terceira Revelação; também sem escrúpulos e ambicioso, cuja retórica constitui um entrave aos planos de Plainview, exceto se fizerem um acordo, óbvio. Entre os dois, cenas pungentes, confrontos, fé, hipocrisia e culpa. A redenção que se encontra somente quando não se tem para onde ir. Somado a isto, o pano de fundo da construção de uma nação: religião e capitalismo.
A época, virada do século vinte, início da expansão americana, da crescente indústria do petróleo – consta que o primeiro poço foi perfurado em 1859 –, e dos grandes volumes de dinheiro que fariam da América o que ela hoje é, rica e desonesta.
O diretor P.T.Jackson, que adaptou o roteiro do livro Oil! (1927), de Upton Sinclair, é sempre respeitável. Pela carreira sim, mas também por manter o peso que o filme exigia. Peso este que diz respeito à lei da gravidade, que lança as pessoas ao solo. Um filme sobre homens que rastejam, seja por uma imposição de regras ou por, em alguns casos, ser esta a sua verdadeira natureza.

domingo, 16 de maio de 2010

Homem de Ferro 2:



Muito barulho por nada




Pontos fortes:
- Mickey Rourke
- Os diálogos lacônicos e irônicos de Tony Stark diante dos Senadores.
- No início do filme, os vôos panorâmicos do Homem de Ferro pela cidade iluminada.
- As cenas realizadas em Mônaco.


Ponto extra-forte
- As cenas de combate da Viúva Negra (Scarlett Johanson).

Pontos extra-fracos:

- Podiam ter extraído uma interpretação melhor de Rourke. Bastava não deixá-lo esquecido em parte do filme. Tinha tudo para ser o novo Heath Ledger, se é que você me entende.

- O rival das indústrias Stark, o empresário Justin Hammer, oscila entre o caricato e ardiloso. A superficialidade, entretanto, é constante, como os vilões dos filmes do Steven Seagal. Insípido.

- Terem colocado Samuel L. Jackson como Nick Fury foi uma piada, desde o início. Interpretação afetadíssima e fora de propósito. Francamente.

- Todas as cenas de combate entre o Homem de Ferro são megalomaníacas, sobretudo as do final, com armamento pesado estourando em plena metrópole, e a população fugindo. Ao se preocupar com a coerência daquilo tudo, você não se envolve na ação.

Great Expectations (título em homenagem à Gwyneth Paltrow, se é que você me entende):
A formação dos Vingadores, que nos originais eram: Thor, Capitão América, Feiticeira Escarlate e – o meu preferido – o Visão, só para citar os principais. Mas, a julgar pela falta de veracidade que tem sido dada aos personagens, as adaptações dos quadrinhos são experiências não muito agradáveis de se ver no cinema. Mas até que o Homem de Ferro está bem acima de, por exemplo, Hulk, Quarteto Fantástico e Homem-Aranha. É pena, mas não é sempre que se faz um Batman-The Dark Knight.

Filmes de ontem e hoje: A Queda






A QUEDA



“As Últimas Horas de Hitler”


Abril de 1945. Decidido a ficar em Berlim, Adolf Hitler refugia-se em um bunker, uma espécie de abrigo subterrâneo, localizado sob a Chancelaria instalada no coração da cidade.
Inconformado com o avanço das tropas russas, o líder nazista traça insólitas estratégias de guerra nas linhas de um mapa, conduzindo, com suas trêmulas mãos, imaginários exércitos aos campos de batalha. O führer – líder –, com peculiares arroubos de grandeza, lutava inutilmente contra o fim que se anunciava através das sucessivas derrotas do exército nazista frente ao rolo compressor do Exército Vermelho. O Terceiro Reich foi uma designação nacionalista que evocava o Sacro Império Romano-Germânico fundado por Oton I em 962, e o Segundo Império, de Guilherme I em 1871, com a unificação alemã. E o sonho dele se perpetuar estava prestes a ruir juntamente com os planos de conquista mundial.
Esse é o cenário retratado em A Queda, filme realizado em 2004, baseado nos relatos do livro “Bis Zur Letzten Stunde” (Até a Hora Final: A Última Secretária de Hitler) de Traudl Junge e Melissa Müller, e em “Der Untergang”(No Bunker de Hitler: Os Últimos Dias do Terceiro Reich) de Joachim Fest. O filme provocou controversas opiniões. Isto porque o diretor Oliver Hirschbiegel optou não apenas por narrar as últimas horas do líder nazista, mas também por permitir que os fatos falassem por si mesmos. Assim, é notória a humanização de Hitler retratado não só nos inflamados discursos que o tornaram conhecido, mas, desta vez, também em sua intimidade, em seu tom confessional, em seu desgaste físico e mental.
Desse modo, o neurastênico ditador que chama seus oficiais de fracassados e covardes, que condena à morte os generais traidores que queriam fazer acordo com Eisenhower – o comandante das forças aliadas na Europa Ocidental –, que atribui ao povo alemão a culpa pela derrota e que abomina a nefasta influência dos judeus nas nações do Ocidente, esse ditador, pela primeira vez, contrasta com o frágil sujeito que alimenta sua cadela Blondi (a quem considera mais inteligente do que muitos humanos), com o homem que dispensa um dócil tratamento às mulheres e que se preocupa com o bem-estar de sua companheira e futura esposa Eva Braun, com o personagem esgotado que aspira à paz eterna quando der cabo de sua existência. Paz que só seria possível em vida se fossem vitoriosas suas apaixonadas concepções ideológicas e estéticas. Artes, Cultura, a marca de uma civilização que duraria milênios, era tudo de que o povo precisava, filosofa Hitler.
Seu aniversário, inclusive, se dá naqueles dias. Em 20 de Abril Hitler comemorou seu 56º. aniversário. Albert Speer, o ministro das armas, que com ele esteve naquela ocasião, impressionou-se com o estado do führer que, segundo relata, parecia-se com um decrépito ancião; até mesmo o uniforme, antes impecável, agora estava amarrotado, manchado pela comida que levava trêmulo à boca. Era o próprio retrato do regime que ruía.
É importante notar que as críticas em torno da obra dizem respeito, também, ao fato de o filme não exibir sequer um herói americano, não ter exaltado o exército aliado, ou atribuído ao povo judeu o monopólio do sofrimento mundial. Por outro lado, também A Queda não visou ancorar-se na figura de um líder traído e abandonado pelos demais. Antes, aposta no vigor da história, na força que ela contém em si mesma, o que lhe aproxima muito de um documentário exigindo, por isto, o máximo de dramaticidade dos personagens.
Essa latente tensão fica evidente através de Goebbels, ministro da propaganda, e de sua esposa Magda. Ali é que podemos vislumbrar o que Hitler e a ideologia nazista representaram à Alemanha. Era uma filosofia de vida. Nas palavras de Magda “nosso ideal morreu junto com a coisa mais linda, admirável e nobre que conhecemos. Não há futuro em um mundo sem o nacional-socialismo”. Parece não ter fim a cena em que ela põe em prática o trágico fim de sua família, ao som de cápsulas com veneno se rompendo entre os dentes, retratada de forma crua, resoluta. Também a cena do aposento de Hitler após seu suicídio, mostrando uma arma e uma poça de sangue, nos faz pensar no quanto tudo aquilo que está ocorrendo (trata-se de uma guerra de imensas proporções) tenha, curiosamente, sido idealizado por um simples mortal, cuja oratória provocava a admiração incondicional e o domínio da massa de insatisfeitos na Alemanha pós Tratado de Versalhes e Crise de 1929. Um simples mortal, aparentemente frágil, considerado uma das figuras mais vigorosas e emblemáticas do século XX.
A cena da fuga dos alemães na Berlim prestes a ser ocupada também há de ser lembrada. A destruição dos departamentos com suas documentações incendiadas, os amplos edifícios abandonados despejando pelas janelas sua parte de responsabilidade por tudo que ocorrera em 12 anos de Reich. A guerra acabaria em 07 de Maio com a rendição alemã, mas o Japão a estenderia até Agosto daquele ano.

Destaque para a atuação de Bruno Ganz, ator que ousadamente interpretou o papel do ditador, estudando minuciosamente aspectos de sua personalidade, trejeitos e o sotaque austríaco. Deste ator também é a voz que narra o famoso documentário “Arquitetura da Destruição”, obra realizada por Peter Cohen, em 1994.
A Queda concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, bateu recordes de bilheteria na Alemanha, na Inglaterra e fez sucesso nos Estados Unidos. Teve uma exibição tímida nos cinemas de Israel, pois o Centro de Direitos Humanos Judaico recomendou que o mesmo não fosse visto. É uma obra única, corajosa e que acrescenta novos elementos aos habituais filmes sobre a Segunda Guerra Mundial, explorando os bastidores, as mentalidades e os efeitos de uma ideologia nas entrelinhas do conflito.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Reflexão:


















“O que você chama de inferno, Rambo chama de lar”.



Diálogo do Coronel Trautman – Richard Crenna – com o Xerife que persegue Rambo, interpretado por Brian Dennehy em Rambo-Programado para Matar (1982).

sábado, 1 de maio de 2010

O Livro de Eli






O último livro inspirado, para um roteiro nem tanto.









Chega aos cinemas O Livro de Eli, com Denzel Washington como protagonista de uma história toda torta.
A obra tem ares de grande produção, mas nem mesmo esta pretensão soluciona os problemas que o filme apresenta. A fotografia, por exemplo, é pesada, escurecida ao extremo, e isso não é uma virtude. Fosse apenas para retratar o desolado cenário, então até que seria justificado – aliás, os primeiros segundos da aridez de Sangue Negro (2007), só para ilustrar, são mais impactantes do que toda a vã poeira espalhada ao longo deste. Mas o uso em excesso dos tons escurecidos em um filme como este, que se sustenta na ação, gera um certo incômodo, pois nas cenas de luta o espectador tem de ficar caçando os personagens nas sombras. Lembra até aquele duelo fajuto do Surfista Prateado com o Tocha Humana (Quarteto Fantástico 2). Além disso, o filme exibe uma série de clichês. Para você ter uma ideia: a semelhança múltipla com Mad Max (1979), porém muito piorada. Longas rodovias, bandidos em motocicletas, arruaceiros, comida enlatada e inclusive um sujeito, dono de um decadente armazém, que lembra em muito o Tom Waits da seqüência de 1982.
Mas sigamos na trilha do esfarrapado roteiro. Eli, personagem destemperado – o desgastado Washington pouco contribui para o papel –, possui uma Bíblia, livro de inspiração divina, e tudo fará para proteger este que é o último exemplar existente na face da Terra – detalhe: na versão King James. Segundo Eli, a voz de Deus ordenou para que ele seguisse na direção oeste. Em se tratando de fé, o motivo é bastante convincente já que célebres personagens da história extrabíblica foram recrutados em circunstâncias semelhantes. Lutero, Joana D’arc, Santo Agostinho e o Imperador Constantino (o último teve visões), são relatos contundentes de pessoas que mudaram o rumo de suas vidas – e da história – por meio de experiências com o divino, o sobrenatural..
Por outro lado, não muito convincente é o motivo que Carnegie, o líder de uma gangue – Gary Oldman que também poderia ser melhor aproveitado –, adota para justificar seu interesse pelo livro. Segundo ele, o livro irá ajudá-lo na dominação das massas. Mas ao contrário do que a Igreja fazia na Idade Média, quando submetia a população camponesa a uma vida miserável à custa da promessa de uma abençoada vida vindoura, Carnegie já exercia influência sobre os miseráveis de sua cidade maltrapilha através do domínio da água, moradia, comida. Esse tipo de dominação parece ser muito mais incisiva, pois afeta diretamente a sobrevivência da população que, além de não saber ler e escrever, sequer entende a natureza de uma oração. Afinal, orar para quem, quando o conceito de Deus é desconhecido? Fato esse que parece acentuar a bestialização da humanidade. O rude modo de vida (sobrevida?) adotado é pouco promissor para o que parece constituir uma façanha: a espiritualização de informes rochedos humanos. Trata-se de criaturas sobreviventes de uma suposta guerra nuclear de grandes proporções. Importa-lhes preencher o vazio do estômago.
Mas em um dado momento – ambigüidade do roteiro que se reflete no comentário deste – parece haver um resquício do conceito de divindade em certos personagens, que a ele não sabem dar nome. O que leva a pensar se, de modo intuitivo e natural, uma nova religião poderia se desenvolver, o que tornaria Deus, além de divino, necessário. Porém, se a resposta a esta dúvida for afirmativa, então pouco importa o livro de Eli, afinal, Carnegie poderia criar a sua própria religião a partir do tal princípio antropológico de necessidade do divino. E se precisasse ter um livro em mãos, bastaria mandar encapar O Código da Vinci – que no filme ele manda queimar (talvez o melhor momento da película) – e, com esta obra, poderia inventar sermões, criar sua religião e manipular o povo como quiser. Portanto, ter o último exemplar da Bíblia apenas faria diferença se ele fosse um devotado cristão. Mas não é este o caso. Por que alguém se importaria em adquirir um livro autêntico se não irá utilizá-lo respeitando seu conteúdo? Qualquer pedaço de papel pode se transformar em papiro sagrado para aquele que desconhece a escrita e a história por ela relatada. Na Idade Média, até mesmo pedaços de madeira, da suposta cruz do Calvário, eram santificados e vendidos como relíquias sagradas. Aliás, num país sincretista como o Brasil, o uso de amuletos ainda é muito contemporâneo.

Antes de concluir, esboço três erros no roteiro, sob o ponto de vista bíblico, evidenciando suas contradições internas, que anulam a mensagem do livro que o próprio roteiro sugere ser importante para a humanidade:

1 – Não haverá um pós-apocalipse. O apocalipse ocorrerá uma vez. E será suficiente. A ideia de um recomeçar civilizatório puramente humano é, em suma, puramente humano. E no Apocalipse não serão os humanos a decidir isto ou aquilo. Ou então estamos falando de algum evento em menor escala que irá anteceder o Apocalipse. Mas isso não é nenhuma novidade, mas apenas o início das dores, retratado nos evangelhos.

2 – A Bíblia não é mediadora da salvação da humanidade. Ela mesmo afirma isso, quando atribui este papel a Cristo. A Bíblia registra a vontade de Cristo. Mas ela não é o Cristo. Além do mais, mesmo se todas as Bíblias fossem queimadas – o que é muito estranho já que é um dos livros mais lidos do mundo – , isso não mudaria o fato de que Deus continuará existindo e declarando sua glória de muitas outras maneiras (Salmo 19 e Romanos1-20), como de fato o fez ao “conversar” com o Eli. Mesmo porque a Bíblia anuncia uma redenção que se cumprirá em Cristo.

3 – O fato de o protagonista ter uma Bíblia não lhe dá direito de sair por aí matando as pessoas, mesmo que criminosas. Na verdade, a Bíblia foi escrita para pessoas como aquelas que Eli matou: bêbados, assassinos, ladrões, criminosos. Pessoas pecadoras que, como eu e você, necessitam do perdão divino. Pessoas como o protagonista, perdidas. Portanto, Eli não entendeu a mensagem bíblica. Preocupado com sua missão, não pensou duas vezes antes de cortar ao meio quem lhe atravessasse o caminho, embora tenha dito que aprendeu – após 30 anos vagando e lendo o livro todos os dias – a se importar com os outros. O correto seria que, ciente do conteúdo dos textos em que medita, Eli evangelizasse as pessoas que encontrasse pelo caminho, no mesmo oeste que lhe fora destinado.

Concluindo:

Imprimir a Bíblia não fará diferença se não houver público para lê-la. Entretanto, se no filme já havia um lugar onde tantos outros livros já estavam sendo preservados, pode-se deduzir que o letramento das massas havia sido iniciado. Isso significa que, após algumas décadas, as pessoas voltarão a ler e a escrever. Enfim, após gerações de cultura oral, teríamos a cultura escrita novamente, e a Bíblia será novamente um livro adotado tanto em igrejas quanto em universidades e estantes. Como já é hoje! Ou seja, não houve nada de redentor na missão de Eli ! Ponto final.

Portanto, é apenas entretenimento, porém de má qualidade. O que é uma pena, já que a ideia original era promissora e, em mãos mais hábeis, poderia se tornar efetivamente relevante.
Mas havia me esquecido. Assim como no filme, o gado da cultura oral e visual respira o mesmo ar empoeirado que os sobreviventes daquele pseudo-apocalipse. Olhos e ouvidos são os estômagos de agora, e estão famintos, sedentos. A coerência da história não importa, e sim as imagens e sons. Nesse caso, o banquete é garantido.